Racismo tem cura?

Muita gente ignora que o racismo seja uma doença grave. Estudiosos do ramo, no entanto, consideram que esta neuropatia é ainda mais insidiosa e letal que o botulismo e o fanatismo, pior até que o mais febril e constipado moralismo. Nos meios acadêmicos, o diagnóstico costuma ser praticamente unânime, condenando a abominável moléstia aos porões do departamento de patologias incuráveis. Poucos especialistas acreditavam sequer na possibilidade de tratamento, até que os recentes rumores de casos fantásticos de recuperação completa deixaram a comunidade científica em polvorosa.

O processo infeccioso é estudado há muitos anos. O germe, geralmente contraído ao se manipular doutrinas cheias de mofo e verdades emboloradas, instala-se com maior facilidade na infância e em cérebros debilitados. Porém, não é nada incomum encontrar intelectuais infectados com preocupante gravidade, às vezes com o ego muito inchado e o discurso bastante inflamado. Parece que quanto mais cultura se adiciona à argamassa cinzenta de um crânio contaminado, mais sólida fica a convicção, mais rígida a inteligência.

Embora as pesquisas avancem de forma rápida e os resultados justifiquem certo otimismo, os peritos advertem que, se a afecção tiver atingido camadas mais profundas do córtex, os danos podem ser irreversíveis. Em casos extremos, somente algum tipo de lobotomia, ou outro recurso radical que a condição de humano civilizado não permite sequer cogitar, seria capaz de amenizar o estrago.

Nestes tempos, em que a cadela do fascismo (sempre no cio) anda tão exibida, seduzindo inumeráveis matilhas com o estranho fascínio da intolerância e do ódio, a enfermidade tem se alastrado de maneira exponencial. Basta acessar as redes sociais (físicas ou virtuais) para perceber a dimensão do distúrbio e concluir que a hostilidade mórbida já se tornou um fenômeno de alta periculosidade e uma questão emergencial de saúde pública.

Em um mundo conectado em velocidade eletrônica, a cada minuto que passa um novo batalhão contaminado pela cólera vomita o rancor pegajoso e corrosivo, rosnando, espumando de raiva e contagiando os simplórios e os imprudentes numa espiral doentia. No Brasil, o secular sonho eugenista de uma raça humana depurada, pesadelo precursor do nazismo, prosperou em um genocídio tenaz, brutal e brutalizador. Cotidianamente é trucidado o mito da democracia racial, doce xarope que nos empurram goela abaixo, enquanto os grupos de pacificação e de extermínio fazem rondas ostensivas para manter a ordem vigente.

É cedo para afirmar que o prodigioso método terapêutico, ainda em uma fase experimental, poderá curar toda espécie de acometidos, sem necessidade de intervenção cirúrgica e outros procedimentos invasivos, mas o entusiasmo é extraordinário. Alguns pacientes, com poucos meses de internação, submetidos apenas a exame de consciência, dieta regrada e medicação literária, ganharam um novo pulso. Mesmo que seja prematuro comemorar o milagre, a esperança de ver o mundo desinfetado de vez do racismo acende um farol nesta obscura noite que atravessamos.
Para saber mais detalhes, leia Melanina!